Chefe da Diamantina: Se não controlar, queima 100%

Do Terra Magazine
Por Thais Bilenky

Patrimônio em chamas. "O Parque Nacional da Chapada Diamantina foi criado (em 1985) devido à consciência da importância de preservar suas belezas cênicas", informa o Ibama

A temporada de incêndio no Parque Nacional da Chapada Diamantina (BA) ocorre entre setembro e fevereiro, quando as temperaturas ficam mais elevadas. Todo ano, o Prevfogo (Ibama) envia 42 brigadistas contratados ao parque, que ao lado de 150 brigadistas voluntários, moradores da região, atuam para debelar o fogo.

O que está se vendo este ano na Chapada Diamantina não tem antecedentes, diz o chefe do parque, Christian Berlinck. Metade da unidade está queimada, o que corresponde a 70 mil hectares. Pela gravidade e descontrole dos incêndios, o Ministério da Integração Nacional enviou ontem, 12 de outubro, mais 30 bombeiros, além dos 100 que já estavam trabalhando no local. Também ontem, o Prevfogo reforçou o efetivo com 24 brigadistas.

Os Equipamentos de Proteção Individual (EPI) tomaram mais tempo a chegar do que deveriam, impedindo o trabalho de parte da equipe, expica Berlinck. Outras justificativas para o tamanho do estrago são de ordem natural: a temperatura está este ano mais elevada que de costume e os ventos, mais fortes e desordenados. “Com ajuda da chuva, esperamos poder conter o fogo”, diz o chefe da unidade. “Se não chover, não sei dizer o tempo que tomará porque depende das condições do vento”. E ressabia:

– Se não controlar toma o parque inteiro.

Como acontece todo ano, pequenos focos de incêndio vinham insurgindo no parque. No dia 3 de outubro, focos maiores apareceram simultaneamente. Para Elmo Monteiro, chefe do Prevfogo (Sistema de Prevenção Nacional e Combate aos Incêndios Florestais do Ibama), agricultores estariam promovendo as queimadas por “retaliação”:

– Acreditamos que esteja havendo processo de retaliação, porque quando você extinguiu fogo em um ponto, surge em outro ponto. O fogo não surge do nada.

– O que temos visto, não só na Chapada, em outros estados também ocorre, é que o uso do fogo (na produção agrícola) ainda é uma cultura e em muitos casos é indiscriminado, em período impróprio, sem critério, sem autorização do órgão ambiental, estadual ou do próprio Ibama, caracterizando neste caso crime ambiental.

Berlinck afirma que na Chapada Diamantina, 95% do fogo é criminoso. Além da unidade de conservação, controlada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), 31 municípios da região estão em chamas. “A maior parte dos focos começou fora do parque, nas áreas rurais”, relata Berlinck. A única causa natural de incêndios, diz o chefe da unidade, são os raios, “e não está chovendo”.

Segundo Berlinck, o fogo se alastra em conseqüência das seguintes atividades: caça, pecuária, agricultura, garimpo e piromania. Ele afirma que “neste momento, há uma equipe do Ibama e uma do IMA (Instituto de Meio Ambiente da Bahia) com fiscais identificando as origens dos fogos e os culpados. Já foram encaminhadas 12 pessoas para a delegacia”.

A perícia para apurar as origens da tragédia será feita após a debelação da mesma. “Aí vem a próxima etapa que é fazer levantamento de toda área queimada, com gps (sistema de localização via satélite) e sobrevôos. Com certeza todos os pontos serão identificados como começando de fora (do parque) para dentro”, avalia Monteiro.

O Prevfogo atende 84 unidades de conservação federais. As brigadas do órgão, segundo seu chefe, são responsáveis para repreender e previnir o uso criminoso do fogo. “Mas em uma unidade daquela dimensão… Não dá para atender toda a área ao mesmo tempo”, alega Monteiro.

Berlinck acrescenta:

– Os brigadistas iam para combate, debelavam a linha de fogo, faziam rescaldo e quando olhavam para trás, o vento tava muito forte, você tinha reignição natural do fogo. Isso minou todos os brigadistas, todos ficaram muito cansados. Faziam três ou quatro vezes o mesmo trabalho por dia, o que leva a uma exaustão muito grande.

“Numa situação deste tipo (de focos de incêndio tão grandes se deflagarem ao mesmo tempo), que foi enfrentada pela primeira vez, poderíamos ter tido mais homens”, avalia Berlinck.

A recuperação das áreas queimadas, quando e se o fogo for contido, deverá respeitar as regras de proteção integral do sistema nacional de unidade de conservação. Em um parque nacional -como é a Chapada Diamantina- “não é previsto recuperação de áreas degradadas ou qualquer interferência, positiva ou negativa”, diz o chefe da unidade.

“Para se ter a recuperação destas áreas é necessário um projeto técnico, muito bem embasado, que seja aprovado pelo Instituto Chico Mendes e pelo Ministério do Meio Ambiente”, assinala Berlinck. Preojeto este que ainda não foi iniciado e que pode e deve “contar com a sociedade civil organizada – via projetos de pesquisa, ONGs” etc, diz Berlinck.

Para Monteiro o trabalho de prevenção deve ser fortalecido. Ele diz que as brigadas do Prevfogo devem realizar “ao longo de todo ano, um trabalho educativo com as comunidades, levando aos agricultores informações sobre os efeitos do fogo na vegetação”.

No combate aos incêndios, estão sendo usados cinco aviões, entre estes um Hércules da Força Aérea Brasileira, e três helicópteros.

Leia também: Fogo (e cinema) na Chapada Diamantina

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